MARÇFEST - Cercal a Aldeia mais Punk de Portugal
A prova viva que o Punk não está morto!
Texto: Íris Disruptiva - Fotografia: João Abel Oliveira
O Marçfest vem provar a velha máxima de que a felicidade está nas pequenas coisas.
Só num festival de pequena dimensão é possível que os artistas se fundam com o público, passando para dentro e fora de palco com a mesma naturalidade com que vão buscar uma cerveja. Um evento 100% local, realizado com trabalho voluntário e muito amor. O objectivo é trazer grandes bandas a públicos que não gozam do privilégio de quem vive numa cidade, com uma oferta cultural constante. Por isso, tem toda a minha admiração, quem organiza, faz curadoria e cuida destes eventos de fruição cultural fora do circuito batido.
Quem faz é a comunidade e isso faz toda a diferença.
As bandas chegam e são recebidas pela velha e boa hospitalidade da terra: moelas, pão e vinho dão outro encanto ao sound check. E se tiverem um azar qualquer, há sempre alguém para os safar. Quem o conta são os próprios MAQUINA.: a caminho do Cercal rebentou-lhes um pneu…mas isso não é problema quando há tamanha união e disponibilidade para arregaçar as mangas. Mais uma história de estrada para contar. Depois de um tour pelos “UKéis”, do que eles já tinham mesmo mesmo saudades? De um bom festival de aldeia tuga, ora pois!
A abrir as hostilidades vieram os Loosen Belt,
que se assumem como “os bebés” do alinhamento e veêm nisto uma grande oportunidade e uma tremenda fonte de inspiração. Para além das covers que interpretam juntos, já contam com vários originais e é esse o foco: continuar a criar a sua própria música e a explorar a sua identidade como banda. O Marçfest é terreno fértil para talentos vindouros.
Aqui também se ouve a voz de uma geração que ainda se está a descobrir e a trilhar os novos caminhos que um dia irão percorrer.
Como que a assinalar a mudança de estação, O Turista traz uma camisinha flutuante e a música para acompanhar aquele fim de tarde bem regado ou a noite de verão acalorada. Leve, fresco e cheio de vontade de abanar a anca, lá vem ele dar o corpo à festa, ao engate de cotovelo assente no balcão e às desculpas que se dão no dia seguinte para disfarçar a ressaca.
É Turista mas não vem de muito longe… são já ali da zona Norte do concelho de Ourém.
O Marçfest nasceu porque as gentes do Cercal são fãs ferrenhos de música ao vivo.
Este amor em muito se deve aos In-The-Cisos,
que são uma força motor já há muitos anos, elevando o punk rock português a um género de culto em Ourém. Sentem-se os ecos deste trabalho de amor nos mais jovens que seguem os seus passos, criando a sua própria música e apoiando as bandas locais. Outra coisa muito bonita de se ver é que os In-The-Cisos arrastam consigo gente de todas as idades: os avós, tios e mães que envergam com orgulho as sweaters do Marçfest e são parte essencial do festival.
Todos se juntam ao motim, cantando a uma só voz. Um verdadeiro ritual tribal de provocação e rebeldia.
O concerto mais wild de sempre veio de Victor Torpedo and The Pop Kids.
Nem o palco principal de qualquer grande festival seria suficiente para conter o tsunami avassalador de atitude punk, mas tudo bem porque aqui ninguém quer conter coisa nenhuma, muito pelo contrário. A energia flui livremente e ninguém fica indiferente às tropelias e mestria de todos os envolvidos.
Dentes cerrados, guitarras ao rubro, o comando da voz rouca, o batimento cardíaco a confundir-se com o da bateria, a pulsação do baixo que penetra as paredes estáticas e os corpos frenéticos. O saxofone do Fidalgo a ilustrar o caos e a anarquia.
MAQUINA. começou a dar tudo já madrugada a dentro.
Foi como acordar para voltar a cair num transe lubrificado a ondas sonoras. A luz rarefeita convida a cerrar os olhos. Deixar que o som nos conduza a carne, numa saudação lasciva e involuntária. Absorto no engenho dos seus instrumentos, o trio transporta-nos a alma de dentro para fora e de fora para dentro. Movem-se pelo palco entre espasmos, hiatos e bramidos. Este concerto, para mim, entra numa categoria que muito aprecio: tal como ver “Fear and Loathing In Las Vegas”, ver MAQUINA. ao vivo é como mandar uma droga leve. Com a grande vantagem de ter apenas efeitos benéficos à saúde. Pode perguntar ao seu médico de família… dançar com total desembargo, é tudo de bom na prevenção das mais variadas maleitas.