Mãos que Fazem - A Queijeira
“Aqueles queijinhos frescos mesmo à moda antiga”
Texto e fotos por João Abel Oliveira
Numa altura em que a produção em larga escala operada por maquinaria fria e metálica é a base da nossa alimentação, encontrar quem ainda o faça à mão é algo raro.
Desde pequeno que me lembro destes queijos frescos caseiros. Ao domingo apareciam lá por casa e duravam pouco tempo. Nem chegavam a secar para ficarem rijos e salgados, óptimos para dentes afiados de catraio guloso.
Sabia que o meu pai ainda ia buscar estes queijos frescos a uma senhora ali no sopé da serra, e fiz questão de ir conhecer esta artesã que aos 80 e poucos anos ainda faz queijos todos os dias.
Estamos no Inverno, o sol nasce tarde e a idade já pesa, portanto “às 9h e tal passe cá para vir tirar uns retratos, mas olhe que já só tenho duas cabras”. Na manhã seguinte, lá estava eu à hora marcada em casa da senhora. Seguimos para o curral e as duas cabrinhas estavam tímidas, mas uma pouca de couve seduz a primeira a vir para ser ordenhada. Naquele cantinho é onde se enche o balde de leite para fazer o queijo.
Ordenha feita, balde cheio, está na hora de meter o leite a coalhar. Enquanto isso, fui com o Sôr Esquim do Pereiro ver o resto da quintinha. Fiquei a saber que o marido faz mel, e ficou prometida uma sessão do senhor com as suas colmeias.
Meia hora volvida, o leite está pronto para ser coado e tirar a maior parte da água. As mãos desta senhora carregam muita alma e saber. Agora é pegar nas formas e começar-lhe a botar a coalha do leite. Enche-se aos poucos e vai-se apertando por cima e por baixo e no final cobre-se com sal, tiram-se as formas e levam-se os queijos a secar. Podem ser consumidos frescos ou secos.









Em uma hora passou da teta da cabra ao queijo fresco, tudo feito à mão, por uma senhora de 80 e poucos anos. A destreza e vontade não lhe faltam, as forças é que não duram para sempre... pergunto-me: quantos anos restam a esta arte?
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